quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Quarto dia. A graça e o amor de Deus - Jejum de Daniel

Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5.20).
Esse versículo da Carta de Paulo aos Romanos coloca em cheque os conceitos religiosos de muitas pessoas. O religioso pensa que Deus deve gostar mais dos “bonzinhos”, dos “santinhos”, que Deus deve derramar mais do Seu amor e da Sua graça sobre quem merece mais. Mas a Bíblia diz o oposto: onde havia mais pecado, Ele derramou mais da Sua graça.
A palavra “abundar” significa “ter algo sobrando, saindo pelas beiradas”. Se há na sua vida uma grande quantidade de pecado, quero lhe dar uma boa notícia: há uma quantidade ainda maior da graça do Senhor disponível para você.
Deus é gracioso. Nós falamos muito da graça, mas nem todos compreendem o seu significado. As palavras tendem a perder o seu sentido com o uso excessivo. A palavra “caridade”, por exemplo, originalmente significava “o amor mais profundo de Deus”, mas hoje não passa de “esmola”.
Renove o sentido da palavra graça em seu coração.
1. O que é a graça
Philip Yancey disse: “Graça significa que não há nada que eu possa fazer para Deus me amar
mais e graça significa também que não há nada que eu possa fazer para Deus me amar menos”.
Segundo essa definição, nada, nem entregar o próprio corpo para ser queimado, fará com que
você seja mais amado por Deus. E, mesmo que você cometa o pecado mais terrível, o amor d’Ele
por você permanecerá inalterado.
Você faz bem em querer agradar a Deus. Mas nada do que você fizer mudará o amor d’Ele por
você. Você não precisa correr e se esforçar para conseguir o favor de Deus. Deus já está sorrindo
para você. É a graça de Deus que qualifica você. Graça é uma coisa louca mesmo, é para quem
não merece. A definição teológica de graça é “favor imerecido”, é Deus dando e fazendo tudo para
quem não merece nada.
Os romanos interpretaram mal o conceito bíblico de que, onde abundou o pecado, superabundou
a graça de Deus. Logo, eles concluíram que, se há mais graça onde há mais pecado, então
quanto mais se pecar, mais graça se receberá. Mas Paulo quis dizer que, se você tropeçar ou
falhar, sua falta não mudará o amor de Deus. Ele continuará com os olhos voltados para você,
com a mão estendida e o coração escancarado para perdoá-lo.
Sempre ouço irmãos dizendo: “Ah, você não sabe quem eu sou! Você não sabe o que eu fiz!”. Eu
não sei quem você é, eu sei quem Deus é; eu não sei o que você fez – e nem me interessa muito
–, mas eu sei o que Jesus fez e continua fazendo. A Sua graça está estendida a nós. Precisamos
ser o povo da graça, que é gracioso, que é generoso, que estende a mão, que dá gratuitamente,
que não cobra, que não exige merecimento nenhum, o povo que está com o braço estendido para
quem quer que seja, não importando a condição em que venha.
Não vemos nos Evangelhos Jesus usando a palavra “graça”, mas Ele a viveu e a expressou
completamente. Um judeu jamais encostaria em um leproso, para não ser imundo
cerimonialmente, mas Jesus curou o leproso impondo a mão. Uma prostituta jamais tocaria em
um sacerdote ou fariseu, mas Jesus deixou que ela lavasse os Seus pés com suas lágrimas.
Jesus ia a banquetes nas casas de políticos corruptos, comia com pecadores. Ele era amigo de
pecadores. Ele é seu amigo também. É por isso que Ele é nosso amigo. É por isso que Ele pôde
morrer por nós, porque Ele é amigo de pecadores. Ele mesmo disse que ninguém tem maior amor
do que este: dar a vida por outro amigo. Ele deu a vida por você, que é pecador. Isso é graça.
Nós merecíamos a condenação, mas Ele veio e nos deu algo que jamais mereceríamos. Essa
graça nos atinge e também atinge a Deus. Ela muda a maneira de Deus fazer as coisas, ela altera
a lógica dos homens.
No dia em que o homem pecou, Deus ficou em um dilema. Deus é justo, e a Sua justiça diz: “O
homem deve morrer”. Mas Deus é amoroso, e Seu amor diz: “Eu quero salvar o homem”. Todavia,
o amor não pode contradizer a justiça. Mas houve um dia, lá na cruz do Calvário, que a graça e a
justiça se encontraram e se beijaram. A graça de Deus, o Seu amor, que Ele tanto quis expressar
ao homem, se encontrou com a Sua justiça lá na cruz. Na cruz, a justiça de Deus foi satisfeita: o
homem Jesus morreu a morte de todos os homens. Assim, a Sua justiça foi satisfeita, mas sem
negar o Seu amor.
Que você possa entender o quanto você é amado! Deus o ama você com eterno amor (Jr 31.3).
Quando você conhece a graça de Deus, você não quer fazer coisas para conquistá-lO. Antes,
você fica constrangido com tanto amor e deseja mostrar gratidão, você quer retribuir, mostrar que
também O ama. Este é o verdadeiro cristianismo: o desejo de corresponder ao amor de Deus.
2. A graça e a lógica de Deus
Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça
(Rm 5.20).
Todos sentem que, diante da injustiça, algum preço tem de ser pago. Um estuprador de
criancinhas não pode simplesmente sair livre; um assassino não pode simplesmente dizer: “sinto
muito”. A graça é baseada no preço que Jesus pagou na cruz. E, porque já foi pago, Deus não
cobra coisa alguma. A graça de Deus altera Sua matemática. Pela lógica, onde há mais erro, mais
injustiça e mais crime, precisa haver mais polícia, mais punição, mais castigo. Mas a graça não é
humana, não é deste mundo. A graça veio do céu, ela desceu com Jesus. Jesus é a encarnação
da graça de Deus, do amor de Deus por nós.
Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus
Cristo (Jo 1.17).
O filme O Último Imperador conta a história do último imperador da China. Narra o filme que, em
sua infância, se o imperador fizesse algo errado, ele não poderia ser castigado. Então, um servo
apanhava em seu lugar. A mesma coisa aconteceu conosco. Nós havíamos pecado, mas Jesus
Se fez servo e sofreu a punição em nosso lugar. Ele Se fez servo para fazer de você um filho do
imperador. Se você nasceu de novo, você agora é filho do imperador.
A parábola da ovelha perdida
Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os
fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles. Então, lhes propôs
Jesus esta parábola: Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma
delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?
Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo. E, indo para casa, reúne os amigos e
vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que,
assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove
justos que não necessitam de arrependimento (Lc 15.1-7).
Jesus sempre mostrou muito maior simpatia por pessoas honestas. Pecadores, sim, mas
pecadores que honestamente assumiam seus erros e procuravam mudança. Ele rejeitava os
fariseus certinhos, bonitinhos, santinhos, enganando a si próprios (e tentando enganar a Deus),
pensando não ter erros.
A graça de Deus foge completamente da nossa visão comercial. Ninguém deixaria noventa e nove
ovelhas no deserto para buscar apenas uma que se perdeu. Enquanto estivesse procurando a
ovelha perdida, um lobo ou um ladrão viria e levaria as que ficaram. Mas essa não é a lógica de
Deus. Jesus, o bom pastor, está atrás dessa ovelha perdida.
Se você fosse o único pecador na face da Terra, Jesus ainda assim viria morrer em seu lugar,
porque Ele o ama e o conhece pelo nome. Você consegue perceber esse amor em sua vida?
Quando conseguimos compreender esse amor, ele nos cura e altera completamente nossa vida.
A oferta da viúva
Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo lançava ali o dinheiro. Ora, muitos
ricos depositavam grandes quantias. Vindo, porém, uma viúva pobre, depositou duas pequenas
moedas correspondentes a um quadrante. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em
verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os
ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo
quanto possuía, todo o seu sustento (Mc 12.41-44).
A graça tem uma matemática diferente. Jesus estava olhando as pessoas ofertando no
gazofilácio. Algumas lançavam grandes ofertas, mas veio uma viúva e colocou lá dentro duas
moedas. Ele disse que a viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os
ofertantes. Imagine como se sentiram os grandes doadores! Todavia, Deus não olha o valor
absoluto do que é material, mas o valor que aquilo tem para nós.
A graça de Deus nos ensina que nada que diz respeito a nós é tão grande que Deus não possa
fazer, mas também que nada é tão pequeno que não seja importante para Ele. Deus se importa
com o sapato que você calça, com a roupa que você veste. Ele se importa com o seu trabalho e
mesmo com o carro que você dirige. Deus se importa se você fica doente, se importa se você
passa necessidade. Ele se importa com tudo que diz respeito à sua vida. Porque se nós, que
somos maus, damos importância a tudo que diz respeito aos nossos filhos, muito mais Deus
cuidará dos Seus próprios filhos.
Eu tenho duas filhas e tive que aprender a valorizar tudo o que elas valorizam. Como homem, não
ligava para a maioria das coisas de menina, mas hoje valorizo até um prendedor de cabelo. A
questão é que, se é importante para elas, então é importante para mim também. Não é para meu
uso, pois nem cabelo para usar prendedor eu tenho – e cada dia tenho menos –, mas, se é
importante para elas, é importante para mim também. Há algo que é importante para você? Saiba
que é importante para Deus também.
Alguns religiosos dizem: “Não fique incomodando Deus com essas coisinhas insignificantes”. Mas
essa postura é maligna. Deus tem prazer em ouvir você orar a respeito das suas coisas, em ouvir
suas histórias e ajudar em suas lutas. Ora, eu, como pai, tenho prazer de ver a minha filha estudar
para a prova na primeira série. Ela fica ansiosa no dia, tento acalmá-la e estudo com ela. Mas
jamais desvalorizo sua luta, porque é algo importante para ela. Deus age da mesma forma
conosco.
Deus não é apenas Deus, Ele é o nosso pai. Você pode chamá-lO de pai, você pode dizer: “Pai, é
o seguinte, eu estou com medo de fazer a prova de matemática”. Então, o pai responde: “Vamos
estudar juntos, vamos desenvolver essas equações”. Não importa o que você tem passado, não
importa se as pessoas dizem que algo é insignificante. A graça de Deus é do tamanho da sua
necessidade.
É maravilhoso chamar Deus de pai, é mais que retórica teológica, é mais do que uma expressão
bonita para ser usada em orações solenes. É um fato. Conheço pessoas que oram o Pai Nosso
todos os dias, mas quantas percebem de fato que têm um pai que cuida delas? Quantas
descansam na graça, na generosidade e na abundância da casa desse pai? Quantas se sentem
aconchegadas em saber que estão juntas do pai?
A parábola dos trabalhadores da vinha
Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar
trabalhadores para a sua vinha. E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia,
mandou-os para a vinha. Saindo pela terceira hora, viu, na praça, outros que estavam
desocupados e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e vos darei o que for justo. Eles foram.
Tendo saído outra vez, perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma, e, saindo por
volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados e perguntou-lhes: Por que
estivestes aqui desocupados o dia todo? Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou.
Então, lhes disse ele: Ide também vós para a vinha. Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao
seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos, indo
até aos primeiros. Vindo os da hora undécima, recebeu cada um deles um denário. Ao chegarem
os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém também estes receberam um denário cada
um. Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa, dizendo: Estes últimos
trabalharam apenas uma hora; contudo, os igualaste a nós, que suportamos a fadiga e o calor do
dia. Mas o proprietário, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não
combinaste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto
quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus
olhos porque eu sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos porque
muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt 20.1-16).
Na parábola dos trabalhadores da vinha, vemos a matemática da graça funcionando quando o
senhor da vinha foi remunerar os trabalhadores e, começando pelo que trabalhou oito horas,
pagou o mesmo salário também para o que trabalhou apenas uma hora. A graça possui um
conteúdo de injustiça aos olhos do homem natural.
O senhor da vinha é o Senhor Jesus. Ele contratou trabalhadores para a colheita. Uns Ele
contratou às oito horas da manhã; outros ao meio-dia; às três horas, contratou outro grupo; e às
cinco horas, faltando apenas uma hora para encerrar o expediente, Ele contratou outro grupo.
Todos eles foram contratados pelo mesmo salário. Mas, quando chegou a hora de acertar o
salário, o que aconteceu? Aqueles que começaram a trabalhar às oito horas da manhã acharam
que iriam ganhar mais. Mas não foi o que aconteceu. Todos receberam o mesmo salário. Tanto os
que começaram às oito da manhã quanto os que começaram às cinco da tarde ganharam o
mesmo salário, o que não agradou aos que trabalharam o dia inteiro.
Se fôssemos nós, também iríamos questionar. A matemática parece torta, injusta aos nossos
olhos. É isso o que a graça parece aos olhos das pessoas: algo injusto. Nessa parábola, o Senhor
se refere ao crente que se converteu no começo de sua vida, é o trabalhador da primeira hora.
Aquele outro irmão que se converteu depois de velho é o trabalhador da última hora. Então, qual
deles terá o maior galardão? Quem se converteu aos 60 anos, ou quem se converteu aos 17?
Poderão ter ambos o mesmo galardão, porque a lógica de Deus não é a nossa.
Deus o chamou com 20 anos? Sirva-O a partir dos 20 anos. Mas foi chamado aos 60, não fique
desanimado. O Senhor diz que o salário de todos será o mesmo, ou seja o critério será o mesmo
para todos. Deus não olha o quanto fazemos, olha o quanto somos fiéis. Seja fiel ao Senhor e
você terá a mesma recompensa. Observe que até a recompensa de Deus é baseada na Sua
graça.
2. A graça faz Deus cego de amor
Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que
me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando
tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo
dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele
começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e
este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas
que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos
trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter
com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser
chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai.
Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e
beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado
teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe
um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e
regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E
começaram a regozijar-se (Lc 15.11-32).
No capítulo 15 de Lucas, primeiro Jesus conta a parábola da ovelha perdida, depois Ele fala da
dracma perdida, e no verso 11 narra a parábola do filho pródigo, o filho que havia se perdido.
Na parábola do filho pródigo, podemos ver com muito mais clareza o coração do pai. É a minha
parábola predileta, porque é onde Deus mais se mostra. Muitos pensam que Jesus está falando
do filho pródigo. A intenção de Jesus não era falar do filho pródigo, mas do pai. O pai é o centro da
parábola. É o pai que perdeu a ovelha e a encontrou; é o pai que perdeu a moeda e a achou; é o
pai que perdeu o filho, que depois foi encontrado. A grande verdade dessa parábola diz respeito
ao coração do pai.
Jesus disse que o filho pródigo pediu a herança para gastar. Para um oriental, isso é algo muito
sério. Quando um filho pede a herança ao pai, ele está desejando que seu pai morra. É como se
ele dissesse: “Eu queria que você morresse, mas como você não morre, pelo menos me dê a
minha parte da herança”. Quando um filho pede ao pai a herança antes da hora, ele jamais
poderia voltar à casa do pai, ele é um filho que amaldiçoou o próprio pai.
Esse jovem da parábola, que pediu a herança antes da hora, não tinha amor pelo pai, e seu pai
sabia disso, mas mesmo assim ele resolve dar a herança ao filho. O filho parte para desfrutar da
herança, mas perde todos os seus bens, chegando ao ponto de se tornar um porqueiro – o que,
para um judeu, era a posição mais humilhante a que um homem podia chegar. E ali, desejando se
alimentar das bolotas dos porcos, ele se lembrou de seu pai e resolveu voltar para casa. Ele vinha
ao longe, o pai o viu e saiu correndo ao seu encontro: o pai estava cego de amor.
A graça faz Deus cego de amor. É o único lugar da Bíblia onde vemos Deus correndo. No Oriente,
um homem depois dos 40 anos de idade jamais manifesta algum tipo de emoção publicamente.
Um homem jamais sai correndo para abraçar sua mulher ou abraçar um filho ou quem quer que
seja. O máximo que um ancião faz é caminhar pausadamente, muito compenetrado, sem
expressar nada.
Mas o pai não foi compenetrado. Quando ele viu o filho, não foi o garoto que saiu correndo, foi ele
quem correu atrás do filho. Ele não estava preocupado com o que iam pensar dele, afinal era o
seu filho que estava vindo ali e ele precisava ir encontrá-lo. Deus também corre atrás de nós.
Deus tem mais sede de ter comunhão com você do que você algum dia poderá ter desejo de ter
comunhão com Ele. É Deus quem vem ao nosso encontro e corre até nós, porque Ele nos ama.
Essa história se repete hoje em muitas circunstâncias. Certa vez, li um testemunho de uma moça
filha de evangélicos. Quando ela completou 15 anos, surgiu um desejo enorme de fugir de casa.
Ela começou a achar tudo antiquado. Para ela, os pais eram opressores e a igreja, um lugar
terrível. Ela então fugiu de casa e foi morar a mil quilômetros de distância. Ali ela conheceu um
homem com um carrão. Começaram um romance e esse homem começou a drogá-la e usá-la
como prostituta. Rapidamente, ela se tornou uma prostituta viciada. Aquilo tudo a fazia mais cheia
de ódio ainda. Seu pai, porém, nunca desistiu de encontrá-la.
Nos Estados Unidos, há o costume de se usar as caixinhas de leite para se colocar anúncios de
crianças desaparecidas. E a filha conta que, certo dia, foi ao supermercado comprar leite, e viu
sua fotografia na caixinha. Na foto, ela estava linda, mas ela se olhava no espelho e via outra
mulher, uma mulher já envelhecida, a cara pintada, os cabelos descoloridos, totalmente diferente.
Ninguém nunca a reconheceria. Mas ela fazia questão de fugir. A foto na caixinha de leite a fazia
ficar mais cheia de ódio. Seu pai, porém, nunca desistiu de encontrá-la.
Depois de dez anos, ela pegou uma doença terrível. Aquele homem que a usou a abandonou. Ela
foi morar literalmente na sarjeta. Viciada em drogas, prostituta e doente, ela resolveu voltar para a
casa dos pais, resolveu pedir ajuda, já que estava à beira da morte.
Até amor de pai e mãe tem limite. Até mesmo os pais podem chegar ao ponto de dizer: “Chega,
você abusou, extrapolou, você passou dos limites!”. E o que diriam as pessoas que vissem esse
pai e essa mãe recebendo sua filha de volta? Certamente diriam: “É por isso que não presta. Não
sabem disciplinar”. O que você faria numa situação assim?
Mas o fato é que aquela moça ligou para a casa de seus pais, a secretária eletrônica atendeu e
ela apenas deixou um recado dizendo que estava voltando, que iria passar de ônibus pela cidade
dos seus pais em tal hora e, se eles quisessem vê-la, ela estaria na rodoviária. Ela conta em seu
testemunho que viajou mil quilômetros de ônibus, uma noite inteira de viagem, só imaginando
como iria encarar o seu pai, como olharia nos olhos de sua mãe, que desculpa iria inventar, o que
poderia dizer.
E qual não foi a sua surpresa! Quando chegou à rodoviária e desceu do ônibus, ela viu toda a sua
família, primos, tios, avôs, bisavôs, pai, mãe, todos com chapéus de festa, balões nas mãos, e
vieram gritando para ela. Desceu, então, aquela moça destruída, esquelética, deformada pelo
pecado, criou coragem e disse aos seus pais: “Eu preciso falar algo a vocês”. Mas seus pais
interrompendo-a, disseram: “Não, você não tem que dizer nada. Há uma festa esperando-a lá em
casa. Você é a nossa filhinha que se perdeu, mas foi achada!”.
Assim é o coração de Deus. As pessoas podem duvidar e dizer que ninguém pode ser tão
amoroso assim. Mas nós, que temos o Espírito de Deus, conhecemos a graça do Pai. Nós somos
esse filho pródigo.
Um Deus que não desiste
Quantas vezes temos nos prostituído espiritualmente? Quantas vezes temos nos desviado? Mas
Jesus não desiste, a graça d’Ele sempre vem atrás de nós. O homem pode estar arrebentado,
prostituído, doente, viciado. Mas Ele sempre diz: “Vem assim mesmo, eu vou cuidar de você. Vou
mudar você!”. Deus nos aceita em qualquer circunstância.
Até a conversão nos parece uma grande loucura. Imagine um jovem de dezessete anos. Você
prega para ele, mas ele rejeita Jesus porque está novo ainda, quer deixar para mais tarde. Esse
jovem desperdiça sua vida no pecado e só vem aos 30, 40, ou até aos 80 anos. Nessa hora,
quando está no fim da sua vida, alguém lhe diz: “Por que você não vem para Deus agora?”. Ele
pensa consigo: “Minha vida já acabou mesmo, não tenho mais nada a perder”. Se você fosse
Deus, você o aceitaria? O que você faria?
Mas nós não somos Deus. Só há um Deus e esse Deus é gracioso. Aquela pessoa aceita a Jesus
e o Senhor a recebe com os braços abertos, dizendo: “Por oitenta anos, eu o esperei”. Deus sabe
que essa pessoa está vindo só porque tem medo do inferno, mas Ele a aceita assim mesmo,
porque a ama tanto. Essa é a graça de Deus.
Eu sirvo a Deus porque essa graça me conquistou. Eu amo o Senhor. Eu amo a Sua presença. Eu
amo o Seu amor. Para mim, não há gozo maior que Sua unção e Sua voz suave sussurrando ao
meu coração. Eu amo Sua Palavra, Suas promessas, Sua vida residente em mim. Eu amo o
Senhor. O que eu quero é Ele. Eu quero estar ligado à Sua divindade, enxertado n’Ele, bebendo
d’Ele, comendo d’Ele. Sua graça me fascina, é amor demais, está acima do que a lógica humana
pode aceitar.
Gosto de pensar que meu destino era a condenação, mas Ele me trouxe para Sua festa. Nós não
merecemos nada, mas Sua graça nos alcançou. Há uma história interessante e muito peculiar que
ilustra esse aspecto da graça de Deus. Um casal estava com o casamento marcado. Eles
reservaram um grande salão para a festa do casamento e contrataram um buffet famoso para
servir a comida. Pagaram tudo antecipadamente. Alguns dias antes do casamento, porém, o noivo
ficou em dúvida e resolveu não se casar mais.
A noiva foi até o bufê para desfazer o contrato, mas o dono do bufê não aceitou, porque já estava
tudo preparado. “No dia marcado, haverá uma festa, ou então você pega todo o material da festa
e leva para a sua casa”, disse ele. Aquela moça resolveu fazer algo inusitado, decidiu usar aquela
festa para falar de Jesus. Ela tinha reservado um bufê muito rico, os garçons serviriam com fraque
e gravata borboleta. Os talheres eram de prata e o lugar, muito elegante.
Ela saiu, convidou todos os mendigos, abandonados, rejeitados e os que perambulavam pelas
ruas para que fossem à sua festa. No dia da festa, os garçons nunca tinham visto tantos
miseráveis reunidos e os mendigos nunca haviam comido tão bem na vida, com talheres de prata,
servidos por garçons vestido de fraque. O mesmo contrato que não permitia pegar o dinheiro de
volta, obrigava os garçons a servir qualquer convidado que estivesse ali.
Foi exatamente o que Jesus fez. Nós não merecíamos estar na festa, mas Ele colocou os
melhores talheres e a melhor comida diante de nós e nos convidou para a melhor festa. É disso
que o coração de Deus está cheio. Nós precisamos sair e convidar as pessoas para virem
festejar com o Senhor, porque o nosso Deus já preparou a ceia.
Eu quero desafiá-lo a se ver naquela ovelha perdida que o pastor foi atrás. Seja aquela mulher
perdida que foi encontrada. Seja como aquele filho pródigo que gastou tudo dissolutamente, mas
que foi aceito de volta pelo pai. Você é amado de Deus.
No seu evangelho, João não menciona o seu próprio nome. Todas as vezes que ele tem que se
referir a si mesmo, ele diz “aquele discípulo que Jesus amava” (Jo 13.23; 20.2; 21.7; 21.20). João
não se identifica como sendo apóstolo, o discípulo de Jesus ou o autor do evangelho. Ele apenas
diz: “Eu sou aquele que Jesus amava”. E quem é você? Tenha a mesma resposta de João: “Sou
aquele que Jesus ama”.
O amor romântico é a experiência mais próxima da graça pura de Deus. É aquela situação em
que alguém sente ser a pessoa mais desejável, mais atraente, mais companheira do planeta. Ele
sabe que alguém fica acordado à noite pensando nele. Alguém que lhe perdoa antes que peça,
que organiza sua vida em torno da dele. Alguém que lhe ama exatamente como ele é. Assim são
o amor e a graça de Deus.
--
Pr. Aluizio A. Silva

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